8 de jun. de 2010

Vamos produzir uma crônica, turminha?

Uma série de dificuldades nos impede enquanto professores de Língua Portuguesa, de ensinar nossos alunos a escrever.
Há a questão séria de termos poucas aulas semanais e um currículo imenso de Gramática e Literatura para cumprir... Enquanto Produção textual em seus mais diferentes gêneros, precisava ser trabalhado em aulas específicas, pois não é menos importante um aluno saber fazer uma Narrativa, ou Relato, um Poema, Uma Memória Literária, ou mesmo uma Crônica, ou até, em séries mais avançadas,um Artigo de Opinião, ou Dissertação, que agora é aceita em primeira pessoa, desde que bem articulada.

Numa dessas teimosias minha enquanto professora de escola pública no estado do Rio , decidi aderir a Olimpíada de Língua Portuguesa, indo de encontro a todas essas dificuldades básicas e reais.

A turma não queria parar para escrever e precisava emocionar de alguma maneira, para terem coragem, motivação para fazerem sua primeira Crônica, produção baseada em fatos do cotidiano, recheada de figuras de |Linguagem, principalmente Ironia, não deixando, no entanto, de conter fatos reais, e problemáticas sérias.

Lembrei-me então, de um fato inusitado e bastante sério, que ocorreu nessa mesma turma. Diante disso, fiz minha pequena Crônica, que após ser lida, conscientizou a muitos e incentivou a outros tantos a produzirem as suas, baseadas no tema sugerido pela Olimpíada de Língua Portuguesa.... O LUGAR EM QUE VIVO.

Seguiu-se então, o tempo de pesquisa, de entrevistas aos mais velhos moradores da região, as descobertas a respeito dos colonizadores, a importância dos Jesuítas na cidade de São Pedro da Aldeia, e algumas curiosidades que nem eu mesma sabia.

A MINHA FOI MAIS OU MENOS ASSIM: A BORRACHA VOADORA

Num desses dias de luta exaustiva de um professor, profundamente intrigado com o fato dos alunos não fazerem silêncio, não saberem Sintaxe e terem que trabalhar Orações Subordinadas Substantivas no nono ano, cheguei eu nessa turminha, dizendo insistentemente aos meus alunos: - Queridos, vamos lá...Bom dia, matéria nova, quero ver quem vai aprender e responder tudo certinho!!
E desesperadamente, comecei a escrever no quadro, respondendo as questões mais básicas aos adolescentes e pensando nas possibilidades de captação daquele conteúdo.
Eis que de repente, nada mais que muito de repente uma borracha voadora veio fortemente contra minha cabeça. Confesso que aquele ato amargo atingiu não somente minha cabeça, mas meu coração, fluindo pelas emoções e modificando o tom de voz e as glândulas perto dos olhos...
Virei, relutei comigo mesma para não gritar e perder-me de mim mesma, mas com voz de quem sentiu-se atingida, recolhi a borracha, analisei-a... Branca! A borracha era branquinha, não havia maldade na inofensiva borracha! Ela realmente não era inovadora, não tinha asas , nem motorzinho, realmente tive que olhar para meus adolescentes expectadores, risonhos, críticos, a quem eu estava tão disposta a compartilhar conhecimentos... Não vacilei mais: _ Quem fez isso?? Quem foi o dono da mãozinha maldosa e do coraçãozinho inconsequente que quis me atingir, quando tudo que eu queria era cumprir com meu dever com vocês? A resposta foi somente risos e algumas gargalhadas maliciosas... - Quem foi? Exaltei-me! ...-Quem foi? Meu coração chorou!
Imediatamente fui socorrida pela Coordenação e Direção da escola, que teve um diálogo forte e apoiando totalmente minha autoridade. Meu ânimo foi-se embora, o que restava era um misturado de ódio , de raiva, de vontade de dar sermão, como eles dizem! Graças a Deus fiz algumas encenações ridículas, do tipo alteração de voz, e recursos que todo professor tem para sobreviver, devemos ser artistas, psicólogos, fortes e desesperadamente frágeis, sempre, sempre...
prossegui com minha fala: Por que alguém em sua mais terna idade, no auge de sua beleza, vitalidade e inteligência,hormônios a flor da pele quereria perturbar uma professora que já está ficando velha, mais que ainda não desistiu de forjar caráteres, de formar opiniões, de crer no Ensino Público? Ou se desisti em alguns momentos, voltei atrás e descobri que minha trajetória nessa terra estava muito ligada a discipular alunos, segundo padrões de respeito a autoridade, padrões éticos...
Quão tola sou eu em crer que posso produzir alguma diferença ensinando-os Orações subordinadas Substantivas Subjetivas, se os imaturos sequer sabem o que é Sujeito! ( esculachei!)...Quão melodamática sou eu em crer que posso forçá-los a seguir um caminho, mesmo sendo imaturos, não terão vontade de ir contra o sistema e me chamarão chata de ter vindo a aula, de ridícula por encher o quadro...
Jamais alcançarão o pensamento de três anos posteriores, onde estarão desesperados, ávidos pelo ENEM, preocupados com a pressão familiar, dizendo, você tem que passar em algo, seguir uma profissão e ser bem sucedido, não tenho mais a obrigação de mantê-lo, se vira!!!
Mas e agora? Leve para casa a razão do que o moveu a ser tão inconsequente, leve para casa o fato de terem conseguido me vencer nessa aula, eu fracassei, fui fraca, e vocês venceram...
Mas a vida não acaba nessa aula!

E depois de um mês mais ou menos, eu apresentei a turma minha Redação!!
Os olhinhos eram brilhos de arrependimento... Quem somos nós se não acreditamos na mudança de atitude? O que conseguiremos de transformação do sistema se não seguirmos incansavelmente investindo em alunos desacreditados, de baixa auto estima e surtados de ouvir da família um : __ Desisto de você! Só para contrariar, dou-lhe um tempo, para não o cansar, mas decreto que.... _Eu não desisto de você, e você, não desista de mim!!!

Aulas que ficam!!!
Ficam para nós, aprendemos inúmeras lições em cinquenta segundos, algumas dessas, ficam em nosso subconciente e geram reflexões...

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